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Carlos Domingos, Portugal: sobre Eluard y La Libertad

UMA HISTÓRIA VERDADEIRA

 

1

 

Em 1942, durante a ocupação da França pelos nazis, o poeta Paul Éluard escreveu um extraordinário poema, intitulado «Liberté», que ficou na História como um dos símbolos da Resistência.

 

Esse poema foi levado para Inglaterra por um pintor brasileiro, Cícero Dias. Em 1943, traduzido em várias línguas, o poema foi lançado, como um panfleto, por aviões britânicos sobre a França e outros países da Europa.

 

Por ter realizado o notável feito de ter passado o poema, clandestinamente, para fora do país, permitindo a sua difusão, Cícero Dias foi condecorado com o Ordem Nacional do Mérito pelo governo francês, mais de cinquenta anos depois, em 1998.

 

 

2

 

Alguns anos depois da derrota do nazismo, frequentava eu o sétimo ano do curso de língua francesa no Liceu Francês Charlles Lepierre, quando, num autêntico desafio à Censura do fascismo salazarista, a Embaixada francesa patrocinou a realização dum recital de poesia francesa da Resistência, que incluía um filme de curta-metragem baseado no poema de Louis Aragon «La Rose et le Réséda», o qual apelava à união entre crentes (la rose) e não crentes (le réséda) contra a ocupação nazista:

 

                         «Celui qui croyait au Ciel,

                            celui qui n’y croyait pas,

                            tous les deux aimaient la belle

                            prisionière des soldats.»

 

A minha participação nesse recital constou da declamação do poema de Paul Éluard «Liberté», pelo que fui muito felicitado pelos representantes da Embaixada que se encontravam presentes. Nunca me esquecerei que o meu professor de francês tinha sido, ele próprio, um resistente.

 

 

 

3

 

O episódio referente ao pintor brasileiro Cícero Dias que transportou o poema de Paul Éluard para Inglaterra e o posterior reconhecimento do governo francês por essa façanha foram-me dados a conhecer por uma folha informativa datada de 28 de Outubro de 2002, comemorativa do centenário do nascimento do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, folha essa que só me chegou às mãos há poucos dias.

 

Foi também por essa mesma folha que tomei agora conhecimento da tradução do poema «Liberté» para português pela dupla de poetas brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, apesar de que essa tradução já fora feita nos anos 40.

 

A referida folha informativa foi, creio eu, da responsabilidade de Carlos Machado.

 

                                               4

 

Viremos agora a página.

 

Em 1972 fui preso pela polícia política criada por Salazar, a famigerada PIDE. Barbaramente torturado, incluindo com a terrível “tortura do sono” durante a qual fui impedido de dormir durante 13 dias seguidos, encerraram-me depois na prisão de Caxias, onde permaneci os três primeiros meses em regime de rigoroso isolamento.

 

Mesmo assim, durante esse período escrevi vários poemas e um relatório sobre os pormenores da minha prisão e o que sofri depois. Todos esses escritos fi-los passar clandestinamente (não podia ser doutra forma) para fora da prisão, apesar da apertada e rigorosa vigilância dos serviços prisionais, que chegavam a radiografar as roupas que entravam e  saíam, desfaziam bolos que recebíamos das famílias, picavam as pastas de dentes, desmanchavam os maços de tabaco, despiam-nos completamente para revistar as nossas roupas ao pormenor antes de comparecermos perante os nossos advogados ou familiares (e, mesmo assim, as visitas realizavam-se na presença de um guarda e de um agente da PIDE).

 

 

A primeira mensagem que consegui fazer passar foi um pequeno poema (era a primeira experiência):

 

«Um preso político é como uma península:

rodeado de lobos por todos os lados

menos por um – a certeza

que o liga aos companheiros.»

 

 

                                                5

 

Acabado o período do isolamento, instalaram-me numa sala onde fiquei com mais quatro companheiros. Em conjunto, organizámos a nossa vida, o nosso estudo, o nosso trabalho politico-cultural, as nossas diversões e, até, as nossas reacções às provocações dos carcereiros.

 

Em Abril de 1973, a união de todos os democratas e anti-fascistas conseguiu realizar em Aveiro, durante cinco dias, o 3º Congresso da Oposição Democrática.

 

Com a colaboração de dois dos meus companheiros de prisão, escrevi uma comunicação ao citado Congresso intitulada «A Repressão Fascista e a Situação dos Presos Políticos em Caxias». Escrita com uma letra muitíssimo minúscula, o dito trabalho ocupou quinze mortalhas para cigarro. Poucos imaginam as dificuldades que foi necessário vencer para as fazer sair de dentro da prisão.

 

Depois de ter sido tudo dactilografado, havia ainda que transportar o trabalho para Aveiro, o que foi feito por uma jovem anti-fascista, noiva de um dos meus companheiros de prisão, acabando por ser ela a ler a comunicação ao Congresso, ante uma extraordinária ovação da assistência. Tudo isto implicou um enorme risco, não só para quem, lá dentro, elaborou o documento, mas também para quem o transportou e o leu na tribuna do Congresso.

 

Essa intervenção está publicada nas «Teses do 3º Congresso da Oposição Democrática», em 8 volumes, página 63 da secção Organização do Estado e Direitos do Homem, Edições Seara Nova, Fevereiro de 1974.

 

Como na autoria da comunicação figurava um Grupo de presos actualmente em Caxias (e é assim que se encontra publicado nas «Teses»), a PIDE não teve qualquer dificuldade em me associar ao evento, pelo que passei a sofrer maior vigilância e repressão.

 

Finalmente, em Maio de 1973, fui transferido para uma prisão política de alta segurança, a Cadeia do Forte de Peniche. Aí estive na companhia de altos dirigentes políticos como António Dias Lourenço, José Magro, Ângelo Veloso e Dinis Miranda, o dirigente sindical Daniel Cabrita, o romancista Mário de Carvalho, o dirigente angolano Garcia Neto (mais tarde assassinado pelos terroristas do grupo de Nito Alves) e outros cujo nome não me ocorre.

 

Em Setembro de 1973 chegou-nos a notícia do golpe fascista de Pinochet no Chile, que nos provocou um estado de espírito de ainda maior revolta.

 

Foi apanhado por esse estado de espírito que decidi traduzir para português o poema de Paul Éluard «Liberté», que eu tinha aprendido e recitado em jovem. Outra luta foi fazer passar a tradução para o exterior, como se deve calcular.

 

Fui libertado quando se deu a revolução do 25 de Abril de 1974. Com a euforia da libertação e do trabalho gigantesco que havia para realizar, perdi o rasto  à tradução do poema de Paul Éluard.

 

Só há dias, ao travar conhecimento com a tradução realizada pelos dois poetas brasileiros, é que me lembrei de que tinha havido uma tradução feita por mim. E, então, resolvi procurá-la, mas sem êxito.

 

Até que… Foi ontem. Foi ontem que me ocorreu a existência duns velhos papéis encafuados numa velha caixa de madeira.

 

Ao abrir a caixa desenterrei tanta coisa! Velhos poemas da juventude que o meu pai tinha conservado religiosamente… E lá estava. Lá estava a tradução.

 

Algumas palavras já não estavam perceptíveis. Mas eu coloquei no seu lugar as que me pareceram fazer sentido e que se adaptavam ao ritmo. Não devo ter falhado muito.

 

 

                                                6

 

 Escreve Carlos Machado, a propósito da tradução do poema «Liberté» executada por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, que «…existe uma profusão de traduções deste poema. Em minha opinião, esta é, de longe, a melhor.» Claro que C. Machado se refere apenas às traduções que ele conhece.

 

Ao confrontar, por exemplo, a minha tradução com a dos dois grandes poetas brasileiros, alguns dos meus amigos  mais credenciados e insuspeitos não conseguiram fazer uma escolha do ponto de vista da qualidade literária. Notaram-lhes, entretanto, algumas semelhanças e algumas diferenças, sendo notórias as duas que se seguem:

 

1. Ambas as traduções seguem a métrica utilizada pelo autor do poema, isto é, a redondilha maior e mantêm-se fiéis a ela até o fim.

 

2. A tradução do duo de poetas denota um ambiente mais frio, de exclusiva preocupação literária, enquanto a minha tradução sofre do defeito de ter sido escrita num contexto prisional.

 

Pois bem. Por mim, não considero esta segunda parte um defeito. Entre mim e o poeta Paul Éluard existe um traço comum: somos ambos resistentes anti-fascistas. Tanto o seu poema como a minha tradução reflectem o ambiente de tensão em que se inseriam. Que eu saiba, tanto Drummond como Bandeira nunca estiveram presos nem participaram activamente na Resistência. As suas vivências foram apenas de cariz humano e intelectual.

 

Para além disso, tenho alguns (pequenos) reparos a fazer.

 

Vejamos. A minha escolha em traduzir “Sur” por “Sobre não se limita a uma prática de literalismo. A nossa preposição “em” tanto pode traduzir o francês “sur” como “dans”.  Écrire sur mes cahiers é diferente de Écrire dans mes cahiers. E, no meu ponto de vista, o “Sobre” dá mais força, mais acutilância à expressão.

 

Há, por outro lado, alguns pontos em que eu estou em nítido desacordo com a tradução do duo Drummond/Bandeira.

 

Na 2ª estrofe, a expressão pages blanches significa páginas em branco (podem até ser amarelas) e não páginas brancas.

 

Traduzir dorées por redouradas é nitidamente para cumprir a métrica. E armes não são armaduras. É muito diferente (3ª estrofe).

 

A palavra jungles  não existe em português. Trata-se possivelmente de um calão brasileiro. Porém, num poema deste tipo, para ser lido universalmente, devem ser evitados os regionalismos. A tradução de jungle deve ser selva ou floresta. Também l’écho de mon enfance  não é o céu da minha infância, mas aqui pode tratar-se de uma gralha tipográfica, uma vez que a métrica não ficou certa (4ª estrofe).

 

Journée não é alvorada. Alvorada é o nascer do dia, enquanto journée é a totalidade do tempo que preenche o dia (5ª estrofe).

 

Lune vivante é lua viva e não lua vivendo (?!) (6ª estrofe).

 

Asas dos passarinhos  é muito redutor, pois deixa de fora os grandes pássaros, como águias, falcões, etc. O poeta diz simplesmente des oiseaux, isto é, pássaros. Além de que o diminutivo é demasiado terno e carinhoso para um poema que se quer com raiva (7ª estrofe).

 

Sur la mer  é o que diz o poeta. Água do mar pode-se ir buscar à praia num balde. O poeta fala no mar como um todo, como uma realidade. Ele não escreve sobre a água do balde, mas sim sobre o mar. E, logo a seguir, ele fala em bateaux (barcos) e não em navios (navires). Também serranias não é o mesmo que montagne. Montanha é uma realidade unificada, mais personalizada e, por isso, mais forte (8ªestrofe).

 

Até. É uma palavra metida a martelo para completar a métrica (9ª estrofe).

O poeta diz les cloches des couleurs, não diz que são sete cores (10ª estrofe).

 

Traduzir tremplin por trampolim é traduzir à letra. Tremplin tanto pode significar trampolim como degrau que dá acesso, diferente de degrau da escada que se diz marche. Em português dizemos o degrau da porta (15ª estrofe).

 

Les lèvres attentives não significa que estejam atentos, mas sim que estão à espera. Attentif, de attendre (esperar, estar à espera) (17ª estrofe).

 

Les marches de la mort são os degraus da morte e não as escadas. Parte-se do princípio de que a morte terá uma escada (escalier) a qual terá muitos degraus (marches) (19ª estrofe).

 

E pronto. Quanto ao final, eu optei por não usar a palavra chamar. Em português chamar pode ter vários sentidos. Pode corresponder ao francês nommer, mas também pode significar appeler. No poema, Éluard emprega nommer e, para evitar interpretações dúbias eu decidi-me por invocar.

 

Finalmente, apesar de lhe apontar alguns senões (diz-se que não há bela sem senão), eu não me atrevo a dizer que a tradução de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira não seja uma bela tradução.

Quanto à minha tradução, eu não a classifico como  melhor, apenas reivindico a qualidade de diferente. Ela pretende ser apenas uma tradução feita por um resistente anti-fascista que estava preso  precisamente numa altura em que a Democracia estava a ser barbaramente esquartejada no Chile. Ela está, pois, imbuída daquela raiva e espírito de resistência, reflexo das condições em que foi concebida.

 

 

                                               7

 

A propósito da proeza do pintor pernambucano Cícero Dias de ter transportado o poema de Éluard para Inglaterra e, com isto, ter ganho o reconhecimento, embora tardio, do governo francês, a ponto de lhe ter sido conferida uma medalha, devemos admitir que, não contestando de forma alguma o seu notável mérito, a sua acção não pode ser considerada propriamente um feito heróico.

 

E isto porquê?

 

Primeiro, porque não é muito difícil esconder um pequeno papel dentro da roupa ou na bagagem. Segundo, porque bastaria ter deixado figurar como título aquele que o poeta lhe tinha atribuído inicialmente com carácter provisório: Une seule pensée. Complementarmente, ser-lhe-ia retirado o verso final constituído pela palavra Liberté. Estes procedimentos dariam ao poema um ar inofensivo, capaz de iludir qualquer vigilância mais severa. Uma vez em Inglaterra, seria restituído ao poema o seu aspecto original.

 

Tudo isto é claro como água.

 

O que já não foi tão fácil foi fazer sair uma tradução do poema «Liberdade» para o exterior duma prisão política de alta segurança como era a Cadeia do Forte de Peniche. O mesmo se pode dizer em relação às centenas de mensagens que saíram e entraram em todas as prisões políticas do fascismo. Isso sim, foram actos de heroísmo praticados, durante os 48 longos anos de ditadura pelos presos políticos portugueses, os quais, até à data, ainda não foram publicamente homenageados pelos representantes da nossa Democracia, para a conquista da qual eles tão duramente contribuíram. 

   

 

15-9-2006

                                                                Carlos Domingos

Por lobitogabriel - 9 de Octubre, 2006, 13:32, Categoría: lecturas
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